quinta-feira, 31 de outubro de 2013

36) A Meada (ótima história!)


A  Meada (ótima história!)

     A conversação entre as duas jovens senhoras se desenvolvia no ônibus.
     - Você não pode imaginar o meu amor por ele...
     - Não posso concordar com você.
     - Decerto que não me entende.
     - Mas, Dulce, você chega a querer o Dionísio, tanto quanto ao marido?
     - Não tanto, mas não consigo passar sem os dois.
     - Meu Deus! Isso é coisa de casal sem filhos!...
     - É possível...
     - Você não acha isso estranho, inadmissível?
     - Acho natural.
     - Noto você demasiadamente apegada, não é justo...
     - Sei que você não me compreende...
     - Simplesmente não concordo.
     - Mas Dionísio...
     - Isso é uma psicose...

     Dona Dulce e a amiga, no entanto, ignoravam que Dona Lequinha, vizinha de ambas, sentara-se perto e estava de ouvido atento, sem perder palavra.
     De parada em parada, cada uma volveu ao lar suburbano, mas Dona Lequinha, ao chegar em casa, começou a fantasiar... 
      Bem que notara Dona Dulce acompanhada por um moço ao tomar o elétrico, aliás, pessoa de cativante presença. Recordava-lhe as palavras derradeiras: “vá tranqüila, amanhã telefonarei...”

     Cabeça quente, vasculhando novidades no ar, aguardou o esposo, colega de serviço do marido de Dona Dulce, e tão logo à mesa, a sós com ele para o jantar, surgiu novo diálogo:
     - Você não imagina o que vi hoje...
     - Diga, mulher...
     - Dona Dulce, calcule você!... Dona Dulce, que sempre nos pareceu uma santa, está de aventuras...
     - O quê?!...
     - Vi com meus olhos... Um rapazão a seguia mostrando gestos de apaixonado e, por fim, no ônibus, ela própria se confessou a Dona Cecília...          Chegou a dizer que não consegue viver sem o marido e sem o outro... Uma calamidade!...
     - Ah! mas isso não fica assim, não! Júlio é meu colega e Júlio vai saber!...

     A conversa transitou através de comentários escusos e, no dia imediato, pela manhã, na oficina, o amigo ouve do amigo o desabafo em tom sigiloso:
     - Júlio, você me entende... somos companheiros e não posso enganá-lo... O que vou dizer representa um sacrifício para mim, mas falo para seu bem... Seu nome é limpo demais para ser desrespeitado, como estou vendo... Não posso ficar calado por mais tempo... Sua mulher...
     E o esposo escutou a denúncia, longamente cochichada, qual se lhe enternassem afiada lâmina no peito.
     Agradeceu, pálido...

     Em seguida, pediu licença ao chefe para ir a casa, alegando um pretexto qualquer. No fundo, porém, ansiava por um entendimento com a esposa, aconselhá-la, saber o que havia de certo.
     Deixou o serviço, no rumo do lar e, aí chegando, penetrou a sala, agoniado...
     Estacou, de improviso.
     A companheira falava, despreocupamente, ao telefone, no quarto de dormir:
     - “Ah! sim!...”, “Não há problema”, “Hoje mesmo”. “Às três horas”... “Meu marido não pode saber...”.

     Júlio retrocedeu, à maneira de cão espancado. Sob enorme excitação, tornou à rua. Logo após, notificou na oficina que se achava doente e pretendia medicar-se. Retornou a casa e tentou o almoço, em companhia da mulher que, em vão, procurou fazê-lo sorrir.
     Acabrunhado, voltou a perambular pelas vias públicas e, poucos minutos depois das três da tarde, entrou sutilmente no lar... 
     Aflito, mentalmente descontrolado, entreabriu devagarinho a porta do quarto e viu, agora positivamente aterrado, um rapaz em mangas de camisa, a inclinar-se sobre o seu próprio leito. De imaginação envenenada, concebeu a pior interpretação...
     O pobre operário recuou em delírio e, à noite, foi encontrado morto num pequeno galpão dos fundos. Enforcara-se em desespero...

     Só então, ao choro de Dona Dulce, o mexerico foi destrinçado.
     Dionísio era apenas o belo gatinho angorá, que a desolada senhora criava com estimação imensa.
     O moço que a seguira até o ônibus era o veterinário, a cujos cuidados profissionais confiara ela o animal doente.
     O telefonema era baseado na encomenda que Dona Dulce fizera de um colchão de molas, ao gosto moderno, para uma afetuosa surpresa ao marido, e o rapaz que se achava no aposento íntimo do casal era, nem mais nem menos, o empregado da casa de móveis que viera ajustar o colchão referido ao leito de grandes proporções.

     A tragédia, porém, estava consumada e Dona Lequinha, diante do suicida exposto à visitação, comentou, baixinho, para a amiga de lado:
     - Que homem precipitado!... Morrer por uma bobagem! A gente fala certas coisas, só por falar!...

pelo Espírito Irmão X - Do livro:  Estante da Vida, Médium: Francisco Candido Xavier.



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