terça-feira, 29 de outubro de 2013

35) O Programa Do Senhor (maravilhosa história!)

O Programa Do Senhor 
(maravilhosa história!)

     A frente da turba faminta, Jesus multiplicou os pães e os peixes, atendendo à necessidade dos circunstantes.
     O fenômeno maravilhara.
     O povo jazia entre o êxtase e o júbilo intraduzíveis.
     Fora quinhoado por um sinal do Céu, maior que os de Moisés e Josué.
     Frêmito de admiração e assombro dominava a massa compacta.
     Relacionavam-se, ali, pessoas procedentes das regiões mais diversas.
     Além dos peregrinos, em grande número, que se adensavam habitualmente em torno do Senhor, buscando consolação e cura, mercadores da Iduméia, negociantes da Síria, soldados romanos e cameleiros do deserto, ali se congregavam em multidão, na qual se destacavam as exclamações das mulheres e o choro das criancinhas.

     O povo, convenientemente sentado na relva, recebia, com interjeições gratulatórias, o saboroso pão que resultara do milagre sublime.
     Água pura em grandes bilhas era servida, após o substancioso repasto, pelas mãos robustas e felizes dos apóstolos.
     E Jesus, após renovar as promessas do Reino de Deus, de semblante melancólico e sereno contemplava os seguidores, da eminência do monte.
     Semelhava-se, realmente, a um príncipe, materializado, de súbito, na Terra, pela suavidade que lhe transparecia da fronte excelsa, tocada pelo vento que soprava, de leve...

     Expressões de júbilo eram ouvidas, aqui e ali.
     Não fornecera Ele provas de inexcedível poder? 
     Não era o maior de todos os profetas? 
     Não seria o libertador da raça escolhida?
     Recolhiam os discípulos a sobra abundante do inesperado banquete, quando Malebel, espadaúdo assessor da Justiça em Jerusalém, acercou-se do Mestre e clamou para a multidão, haver encontrado o restaurador de Israel. 

     Esclareceu que conviria receber-lhe as determinações, desde aquela hora inesquecível, e os ouvintes reergueram-se, à pressa, engrossando fileiras, ao redor do Messias Nazareno.
     Jesus, em silêncio, esperou que alguém lhe endereçasse a palavra e, efetivamente, Malebel não se fez rogado.
     – Senhor – indagou, exultante –, és, em verdade, o arauto do novo Reino?
     – Sim – respondeu o Cristo, sem, titubear.
     – Em que alicerces será estabelecida a nova ordem? – prosseguiu o oficial do Sinédrio, dilatando o diálogo.
     – Em obrigações de trabalho para todos.
     O interlocutor esfregou o sobrecenho com a mão direita, evidentemente inquieto, e continuou:

     – Instituir-se-á, porém, uma organização hierárquica?
     – Como não? – acentuou o Mestre, sorrindo.
     – Qual a função dos melhores?
     – Melhorar os piores.
     – E a ocupação dos mais inteligentes?
     – Instruir os ignorantes.
     – Senhor, e os bons? Que farão os homens bons, dentro do novo sistema?
     Ajudarão aos maus, á fim de que estes se façam igualmente bons.
     – E o encargo dos ricos?
     – Amparar os mais pobres para que também se enriqueçam de recursos e conhecimentos.

     – Mestre – tornou Malebel, desapontado – quem ditará semelhantes normas?
     – O amor pelo sacrifício, que florescerá em obras de paz no caminho de todos.
     – E quem fiscalizará o funcionamento do novo regime?
     – A compreensão da responsabilidade em cada um de nós.
     – Senhor, como tudo isto é estranho! – considerou o noviço, alarmado – desejarás dizer que o Reino diferente prescindirá de palácios, exércitos, prisões, impostos e castigos?
     – Sim – aclarou Jesus, abertamente –, dispensará tudo isso e reclamará o espírito de renúncia, de serviço, de humildade, de paciência, de fraternidade, de sinceridade e, sobretudo, do amor de que somos credores, uns para com os outros, e a nossa vitória permanecerá muito mais na ação incessante do bem, com o desprendimento da posse, na esfera de cada um, que nos próprios fundamentos da Justiça, até agora conhecidos no mundo.

     Nesse instante, justamente quando os doentes e os aleijados, os pobres e os aflitos desciam da colina tomados de intenso júbilo, Malebel, o destacado funcionário de Jerusalém, exibindo terrível máscara de sarcasmo na fisionomia dantes respeitosa, voltou as costas ao Senhor, e, acompanhado por algumas centenas de pessoas bem situadas na vida, deu-se pressa em retirar-se, proferindo frases de insulto e zombaria...
     O milagre dos pães fora rapidamente esquecido, dando a entender que a memória funciona dificilmente nos estômagos cheios, e, se Jesus não quis perder o contacto com a multidão, naquela hora célebre, foi obrigado a descer também.

Pontos e Contos (psicografia Chico Xavier - espírito Irmão X) – Capítulo 1

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