sábado, 6 de maio de 2017

109) Estranha Moral


CAPÍTULO XXIII - Estranha Moral


       1. Como nas suas pegadas caminhasse grande massa de povo, Jesus, voltando-se, disse-lhes: 
       - Se alguém vem a mim e não odeia a seu pai e a sua mãe, a sua mulher e aseus filhos, a seus irmãos e irmãs, mesmo a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. 
       -E quem quer que não carregue a sua cruz e me siga, não pode ser meu discípulo. 
       - Assim, aquele dentre vós que não renunciar a tudo o que tem não pode ser meu discípulo. (S. LUCAS, cap. XIV, vv. 25 a 27 e 33.)

       2. Aquele que ama a seu pai ou a sua mãe, mais do que a mim, de mim não é digno; aquele que ama a seu filho ou a sua filha, mais do que a mim, de mim não é digno. (S. MATEUS, cap. X, v. 37.)

       3. Certas palavras, aliás muito raras, atribuídas ao Cristo, fazem tão singular contraste com o seu modo habitual de falar que, instintivamente, se lhes repele o sentido literal, sem que a sublimidade da sua doutrina sofra qual quer dano. 
       Escritas depois de sua morte, pois que nenhum dos Evangelhos foi redigido enquanto ele vivia, lícito é acreditar-se que, em casos como este, o fundo do seu pensamento não foi bem expresso, ou, o que não é menos provável, o sentido primitivo, passando de uma língua para outra, há de ter experimentado alguma alteração. 

     Basta que um erro se haja cometido uma vez, para que os opiadores o tenham repetido, como se dá freqüentemente com relação aos fatos históricos.
       O termo odiar, nesta frase de S. Lucas: Se alguém vem a mim e não odeia a seu pai e a sua mãe, está compreendido nessa hipótese. 
       A ninguém acudirá atribuí-la a Jesus. Será então supérfluo discuti-la e, ainda menos, tentar justificá-la. Importaria, primeiro, saber se ele a pronunciou e, em caso afirmativo, se, na língua em que se exprimia, a palavra em questão tinha o mesmo valor que na nossa. 

       Nesta passagem de S. João: 
       "Aquele que odeia sua vida, neste mundo, a conserva para a vida eterna", é indubitável que ela não exprime a idéia que lhe atribuímos.
       A língua hebraica não era rica e continha muitas palavras com várias significações.
       Tal, por exemplo, a que no Gênese, designa as fases da criação:      
       servia, simultaneamente, para exprimir um período qualquer de tempo e a revolução diurna. 

       Daí, mais tarde, a sua tradução pelo termo dia e a crença de que o mundo foi obra de seis vezes vinte e quatro horas. 
       Tal, também, a palavra com que se designava um camelo e um cabo, uma vez que os cabos eram feitos de pêlos de camelo. 

       Daí o haverem-na traduzido pelo termo camelo, na alegoria do
buraco de uma agulha. (Ver capítulo XVI, nº 2.) (1)
__________
       (1) Non odit, em latim: Kaï ou miseï em grego, não quer dizer odiar, porém, amar menos. 
       O que o verbo grego miseïn exprime, ainda melhor o expressa o verbo hebreu, de que Jesus se há de ter servido. 
       Esse verbo não significa apenas odiar, mas, também amar menos, não amar igualmente, tanto quanto a um outro. 

       No dialeto siríaco, do qual, dizem, Jesus usava com mais freqüência, ainda melhor acentuada é essa significação. Nesse sentido é que o Gênese (capítulo XXIX, vv. 30 e 31) diz: “E Jacob amou também mais a Raquel do que a Lia, e Jeová, vendo que Lia era odiada...” 

       É evidente que o verdadeiro sentido aqui é: menos amada. 
       Assim se deve traduzir. 
       Em muitas outras passagens hebraicas e, sobretudo, siríacas, o mesmo verbo é empregado no sentido de não amar tanto quanto a outro, de sorte que fora contra-senso traduzi-lo por odiar, que tem
outra acepção bem determinada. 
       O texto de S. Mateus, aliás, afasta toda a dificuldade. - ( Nota do Sr.
Pezzani.)

O Evangelho Segundo O Espiritismo- CAPÍTULO XXIII - ESTRANHA MORAL - Allan Kardec

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