domingo, 24 de setembro de 2017

116) Transmissão Do Pensamento - Ação Da Prece (perfeita explicação!)


Transmissão  Do  Pensamento - Ação Da Prece


     9.  A prece é uma invocação, mediante a qual o homem entra, pelo pensamento, em comunicação com o ser a quem se dirige. 
     Pode ter por objeto um pedido, um agradecimento, ou uma glorificação.    
     Podemos orar por nós mesmos ou por outrem, pelos vivos ou pelos
mortos. 
     As preces feitas a Deus escutam-nas os Espíritos incumbidos da execução de suas vontades; as que se dirigem aos bons Espíritos são reportadas a Deus. Quando alguém ora a outros seres que não a Deus, fá-lo recorrendo a intermediários, a intercessores, porquanto nada sucede sem a vontade de Deus.
    

 10.   O Espiritismo torna compreensível a ação da prece, explicando o modo de transmissão do pensamento, quer no caso em que o ser a quem oramos acuda ao nosso apelo, quer no em que apenas lhe chegue o nosso pensamento. 
     Para apreendermos o que ocorre em tal circunstância, precisamos conceber mergulhados no fluido universal, que ocupa o espaço, todos os seres, encarnados e desencarnados,... tal qual nos achamos, neste mundo, dentro da
atmosfera. 
     Esse fluido recebe da vontade uma impulsão; ele é o veículo do pensamento, como o ar o é do som, com a diferença de que as vibrações do ar são circunscritas, ao passo que as do fluido universal se estendem ao infinito.
     
     Dirigido, pois, o pensamento para um ser qualquer, na Terra ou no espaço, de encarnado para desencarnado, ou vice-versa, uma corrente fluídica se estabelece entre um e outro, transmitindo,de um ao outro, o pensamento, como o ar transmite o som.
     A energia da corrente guarda proporção com a do pensamento e da vontade. E assim que os Espíritos ouvem a prece que lhes é dirigida, qualquer que seja o lugar onde se encontrem; 
      é assim que os Espíritos se comunicam entre si, que nos transmitem suas inspirações, que relações se estabelecem a distância entre encarnados.
     Essa explicação vai, sobretudo, com vistas aos que não compreendem a utilidade da prece puramente mística. 
     Não tem por fim materializar a prece, mas tornar-lhe inteligíveis os
efeitos, mostrando que pode exercer ação direta e efetiva. Nem por isso deixa essa ação de estar subordinada à vontade de Deus, juiz supremo em todas as coisas, único apto a torná-la eficaz.
    

     11.   Pela prece, obtém o homem o concurso dos bons Espíritos que acorrem a sustentá-lo em suas boas resoluções e a inspirar-lhe idéias sãs. 
     Ele adquire, desse modo, a força moral necessária a vencer as dificuldades e a volver ao caminho reto, se deste se afastou. 
     Por esse meio, pode também desviar de si os males que atrairia pelas suas próprias faltas. 
     Um homem, por exemplo, vê arruinada a sua saúde, em consequência de excessos a que se entregou, e arrasta, até o termo de seus dias, uma vida de sofrimento: - terá ele o direito de queixar-se, se não obtiver a cura que deseja? 
     Não, pois que houvera podido encontrar na prece a força de resistir às tentações.
     

     12.   Se, em duas partes se dividirem os males da vida, uma constituída dos que o homem não pode evitar e a outra das tribulações de que ele se constituiu a causa primária, pela sua incúria ou por seus excessos (cap. V, nº 4), ver-se-á que a segunda, em quantidade, excede de muito à primeira. 
     Faz-se, portanto, evidente que o homem é o autor da maior parte das suas aflições, às quais se pouparia, se sempre obrasse com sabedoria e prudência.
     Não menos certo é que todas essas misérias resultam das nossas infrações às leis de Deus e que, se as observássemos pontualmente, seríamos inteiramente ditosos. 
     Se não ultrapassássemos o limite do necessário, na satisfação das nossas necessidades, não apanharíamos as enfermidades que resultam dos excessos, nem experimentaríamos as vicissitudes que as doenças acarretam. 
     
     Se puséssemos freio à nossa ambição, não teríamos de temer a ruína; 
     se não quiséssemos subir mais alto do que podemos, não teríamos de recear a queda; 
     se fôssemos humildes, não sofreríamos as decepções do orgulho abatido; 
     se praticássemos a lei de caridade, não seríamos maldizentes, nem invejosos, nem ciosos, e evitaríamos as disputas e dissensões; 
     se mal a ninguém fizéssemos, não houvéramos de temer as vinganças, etc.
     Admitamos que o homem nada possa com relação aos outros males; 
     Que toda prece lhe seja inútil para livrar-se deles; já não seria muito o ter a possibilidade de ficar isento de todos os que decorrem da sua maneira de proceder? 
     Ora, aqui, facilmente se concebe a ação da prece, visto ter por efeito atrair a salutar inspiração dos Espíritos bons, granjear deles força para resistir aos maus pensamentos, cuja realização nos pode ser funesta. 
     Nesse caso, o que eles fazem não é afastar de nós o mal, porém, sim, desviar-nos a nós, do mau pensamento que nos pode causar dano; 
     Eles em nada obstam ao cumprimento dos decretos de Deus, nem
suspendem o curso das leis da Natureza; apenas evitam que as infrinjamos, dirigindo o nosso livre-arbítrio. 
     Agem, contudo, à nossa revelia, de maneira imperceptível, para nos não
subjugar a vontade. 
     O homem se acha então na posição de um que solicita bons conselhos e
os põe em prática, mas conservando a liberdade de segui-los, ou não. 
     Quer Deus que seja assim, para que aquele tenha a responsabilidade dos seus atos e o mérito da escolha entre o bem e o mal. 
     E isso o que o homem pode estar sempre certo de receber, se o pedir com
fervor, sendo, pois, a isso que se podem sobretudo aplicar estas palavras: 
      - "Pedi e obtereis."
     Mesmo com sua eficácia reduzida a essas proporções, já não traria a prece resultados imensos? 
     Ao Espiritismo fora reservado provar-nos a sua ação, com o nos revelar as relações existentes entre o mundo corpóreo e o mundo espiritual. 
     Os efeitos da prece, porém, não se limitam aos que vimos de apontar.
     Recomendam-na todos os Espíritos. 
     Renunciar alguém à prece é negar a bondade de Deus; 
     é recusar, para si, a sua assistência e, para com os outros, abrir mão do bem que lhes pode fazer.
     

     13.   Acedendo ao pedido que se lhe faz, Deus muitas vezes objetiva recompensar a intenção, o devotamento e a fé daquele que ora. 
     Daí decorre que a prece do homem de bem tem mais merecimento aos olhos de Deus e sempre mais eficácia, porquanto o homem vicioso e mau não pode orar com o fervor e a confiança que somente nascem do sentimento da
verdadeira piedade. 
     Do coração do egoísta, do daquele que apenas de lábios ora, unicamente
saem palavras, nunca os ímpetos de caridade que dão à prece todo o seu poder.      Tão claramente isso se compreende que, por um movimento instintivo, quem se quer recomendar às preces de outrem, fá-lo de preferência às daqueles cujo proceder, sente-se, há de ser mais agradável a Deus, pois que são mais prontamente ouvidos.
     

     14.  Por exercer a prece uma como ação magnética, poder-se-ia supor que o seu efeito depende da força fluídica. 
     - Assim, entretanto, não é. 
     Exercendo sobre os homens essa ação, os Espíritos, em sendo preciso, suprem a insuficiência daquele que ora, ou agindo diretamente em seu nome, ou dando-lhe momentaneamente uma força excepcional, quando o julgam
digno dessa graça, ou que ela lhe pode ser proveitosa.
     O homem que não se considere suficientemente bom para exercer salutar influência, não deve por isso abster-se de orar a bem de outrem, com a idéia de que não é digno de ser escutado. 
     A consciência da sua inferioridade constitui uma prova de humildade, grata sempre a Deus, que leva em conta a intenção caridosa que o anima. 
     Seu fervor e sua confiança são um primeiro passo para a sua conversão ao bem, conversão que os Espíritos bons se sentem ditosos em incentivar. 
     Repelida só o é a prece do orgulhoso que deposita fé no seu poder e nos seus merecimentos e acredita ser-lhe possível sobrepor-se à vontade do Eterno.
     15.  Está no pensamento o poder da prece, que por nada depende, nem das palavras, nem do lugar, nem do momento em que seja feita. 
     Pode-se, portanto, orar em toda parte e a qualquer hora, a sós ou em comum. 
     A influência do lugar ou do tempo só se faz sentir nas circunstâncias que favoreçam o recolhimento. 
     A prece em comum tem ação mais poderosa, quando todos os que oram se associam de coração a um mesmo pensamento e colimam o mesmo objetivo, porquanto é como se muitos clamassem juntos e em uníssono. 
     Mas, que importa seja grande o número de pessoas reunidas para orar, se cada uma atua isoladamente e por conta própria?! 
     Cem pessoas juntas podem orar como egoístas, enquanto duas ou três,
ligadas por uma mesma aspiração, orarão quais verdadeiros irmãos em Deus, e mais força terá a prece que lhe dirijam do que a das cem outras. (Cap. XXVIII, nº 4 e nº 5.)
 do livro " O Evangelho Segundo O Espiritismo" - Capítulo Xxvii - Pedi E Obtereis

quarta-feira, 26 de julho de 2017

115) Estranha Moral - Capítulo XXIII




Estranha Moral - Capítulo  XXIII

     Odiar os pais. - Abandonar pai, mãe e filhos. - Deixar aos mortos o cuidado de
enterrar seus mortos. - Não vim trazer a paz, mas, a divisão.

       Odiar Os Pais

       1. Como nas suas pegadas caminhasse grande massa de povo, Jesus, voltando-se, disse-lhes: 
       - Se alguém vem a mim e não odeia a seu pai e a sua mãe, a sua mulher e a seus filhos, a seus irmãos e irmãs, mesmo a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.
        - E quem quer que não carregue a sua cruz e me siga, não pode ser meu
discípulo.
        - Assim, aquele dentre vós que não renunciar a tudo o que tem não pode ser meu discípulo. (S. LUCAS, cap. XIV, vv. 25 a 27 e 33.)

       2. Aquele que ama a seu pai ou a sua mãe, mais do que a mim, de mim não é digno; aquele que ama a seu filho ou a sua filha, mais do que a mim, de mim não é digno. (S. MATEUS, cap. X, v. 37.)

     3. Certas palavras, aliás muito raras, atribuídas ao Cristo, fazem tão singular contraste com o seu modo habitual de falar que, instintivamente, se lhes repele o sentido literal, sem que a sublimidade da sua doutrina sofra 
qualquer dano. 
     Escritas depois de sua morte, pois que nenhum dos Evangelhos foi redigido enquanto ele vivia, lícito é acreditar-se que, em casos como este, o fundo do seu pensamento não foi bem expresso, ou, o que não é menos provável, o sentido primitivo, passando de uma língua para outra, há de ter experimentado alguma alteração. 

     Basta que um erro se haja cometido uma vez, para que os copiadores o tenham repetido, como se dá freqüentemente com relação aos fatos históricos.
     O termo odiar, nesta frase de S. Lucas: "Se alguém vem a mim e não odeia a seu pai e a sua mãe", está compreendido nessa hipótese. A ninguém acudirá atribuí-la a Jesus. 
     Será então supérfluo discuti-la e, ainda menos, tentar justificá-la.    
     Importaria, primeiro, saber se ele a pronunciou e, em caso afirmativo, se, na língua em que se exprimia, a palavra em questão tinha o mesmo valor que na nossa. 

     Nesta passagem de S. João: "Aquele que odeia sua vida, neste mundo, a conserva para a vida eterna", é indubitável que ela não exprime a idéia que lhe
atribuímos.
     A língua hebraica não era rica e continha muitas palavras com várias significações.
     Tal, por exemplo, a que no Gênese, designa as fases da criação: servia, simultaneamente, para exprimir um período qualquer de tempo e a revolução diurna. 
     Daí, mais tarde, a sua tradução pelo termo dia e a crença de que o mundo foi obra de seis vezes vinte e quatro horas. 
     Tal, também, a palavra com que se designava um camelo e um cabo, uma vez que os cabos eram feitos de pêlos de camelo. 
Daí o haverem-na traduzido pelo termo camelo, na alegoria do buraco de uma agulha. (Ver capítulo XVI, nº 2.) (1)
__________
(1) Non odit, em latim: Kaï ou miseï em grego, não quer dizer odiar, porém, amar menos. 
     O que o verbo grego miseïn exprime, ainda melhor o expressa o verbo hebreu, de que Jesus se há de ter servido. 
     Esse verbo não significa apenas odiar, mas, também amar menos, não amar igualmente, tanto quanto a um outro. 
     No dialeto siríaco, do qual, dizem, Jesus usava com mais freqüência, ainda melhor acentuada é essa significação. 
     Nesse sentido é que o Gênese (capítulo XXIX, vv. 30 e 31) diz: “E Jacob amou também mais a Raquel do que a Lia, e Jeová, vendo que Lia era odiada...” 
       É evidente que o verdadeiro sentido aqui é: menos amada.

      Assim se deve traduzir. 
     Em muitas outras passagens hebraicas e, sobretudo, siríacas, o mesmo verbo é empregado no sentido de não amar tanto quanto a outro, de sorte que fora contra-senso traduzi-lo por odiar, que tem outra acepção bem determinada. 
     O texto de S. Mateus, aliás, afasta toda a dificuldade. - ( Nota do Sr.Pezzani.)

     Cumpre, ao demais, se atenda aos costumes e ao caráter dos povos, pelo muito que influem sobre o gênio particular de seus idiomas. Sem esse conhecimento, escapa amiúde o sentido verdadeiro de certas palavras. 
     De uma língua para outra, o mesmo termo se reveste de maior OU menor energia. Pode, numa, envolver injúria ou blasfêmia, e carecer de importância noutra, conforme a idéia que suscite.
     Na mesma língua, algumas palavras perdem seu valor com o correr dos séculos. Por isso é que uma tradução rigorosamente literal nem sempre exprime perfeitamente o pensamento e que, para manter a exatidão, se tem às vezes de empregar, não termos correspondentes, mas outros equivalentes, ou perífrases.
     Estas notas encontram aplicação especial na interpretação das Santas Escrituras e, em particular, dos Evangelhos. 
     Se se não tiver em conta o meio em que Jesus vivia, fica-se exposto a equívocos sobre o valor de certas expressões e de certos fatos,em conseqüência do hábito em que se está de assimilar os outros a si próprio. 
     Em todo caso, cumpre despojar o termo odiar da sua acepção moderna, como contrária ao espírito do ensino de Jesus. (Veja-se também o cap. XIV, nº 5 e seguintes.)

     Abandonar pai, mãe e filhos

     4. Aquele que houver deixado, pelo meu nome, sua casa, os seus irmãos, ou suas irmãs, ou seu pai, ou sua mãe, ou sua mulher, ou seus filhos, ou suas terras, receberá o cêntuplo de tudo isso e terá por herança a vida eterna. (S. MATEUS, cap. XIX, v. 29.)
     5. Então, disse-lhe Pedro: Quanto a nós, vês que tudo deixamos e te seguimos. -
Jesus lhe observou: Digo-vos, em verdade, que ninguém deixará, pelo reino de Deus, sua casa, ou seu pai, ou sua mãe, ou seus irmãos, ou sua mulher, ou seus filhos - que não receba, já neste mundo, muito mais, e no século vindouro a vida eterna. (S. LUCAS, cap. XVIII, vv. 28 a 30.)
     6. Disse-lhe outro: Senhor, eu te seguirei; mas, permite que, antes, disponha do que tenho em minha casa.
      - Jesus lhe respondeu: Quem quer que, tendo posto a mão na charrua, olhar para trás, não está apto para o reino de Deus. (S. LUCAS, cap. IX, vv. 61
e 62.)

     Sem discutir as palavras, deve-se aqui procurar o pensamento, que era, evidentemente, este:
     -  "Os interesses da vida futura prevalecem sobre todos os interesses e todas as considerações humanas", porque esse pensamento está de acordo com a substância da doutrina de Jesus, ao passo que a idéia de uma renunciação à família seria a negação dessa doutrina.
     Não temos, aliás, sob as vistas a aplicação dessas máximas no sacrifício dos interesses e das afeições de família aos da Pátria? 

     Censura-se, porventura, aquele que deixa seu pai, sua mãe, seus irmãos, sua mulher, seus filhos, para marchar em defesa do seu país? 
     Não se lhe reconhece, ao contrário, grande mérito em arrancar-se às doçuras do lar doméstico, aos liames da amizade, para cumprir um dever? 
     E que, então, há deveres que sobrelevam a outros deveres. 
     Não impõe a lei à filha a obrigação de deixar os pais, para acompanhar o esposo?
     
     Formigam no mundo os casos em que são necessárias as mais penosas separações. Nem por isso, entretanto, as afeições se rompem. 
     O afastamento não diminui o respeito, nem a solicitude do filho para com os pais, nem a ternura destes para com aquele. 
     Vê-se, portanto, que, mesmo tomadas ao pé da letra, excetuado o termo odiar, aquelas palavras não seriam uma negação do mandamento que prescreve ao homem honrar a seu pai e a sua mãe, nem do afeto paternal; 

     Com mais forte razão, não o seriam, se tomadas segundo o espírito. 
     Tinham elas por fim mostrar, mediante uma hipérbole, quão imperioso é para a criatura o dever de ocupar-se com a vida futura. 
     Aliás, pouco chocantes haviam de ser para um povo e numa época em que, como conseqüência dos costumes, os laços de família eram menos fortes, do
que no seio de uma civilização moral mais avançada. 

     Esses laços, mais fracos nos povos primitivos, fortalecem-se com o desenvolvimento da sensibilidade e do senso moral. 
     A própria separação é necessária ao progresso. Assim as famílias como as raças se abastardam, desde que se não entrecruzem, se não enxertem umas
nas outras. 
     É essa uma lei da Natureza, tanto no interesse do progresso moral, quanto no do progresso físico.
     Aqui, as coisas são consideradas apenas do ponto de vista terreno. O Espiritismo no-las faz ver de mais alto, mostrando serem os do Espírito, e não os do corpo os verdadeiros laços de afeição; 

     Que aqueles laços não se quebram pela separação, nem mesmo pela morte do corpo; 
     Que se robustecem na vida espiritual, pela depuração do Espírito, verdade consoladora da qual grande força haurem as criaturas, para suportarem as vicissitudes da vida. 
(Cap. IV, nº 18; cap. XIV, nº 8.)


do livro "O Evangelho Segundo O Espiritismo Estranha Moral - Capítulo  XXIII"

quinta-feira, 6 de julho de 2017

terça-feira, 16 de maio de 2017

110) A Jornada Redentora (excelente)




49
A jornada redentora

       Aberta a doce conversação da noite, em torno da Boa Nova, a esposa de Zebedeu perguntou, reverente, dirigindo-se a Jesus:
       — Senhor, como se verificará nossa jornada para o Reino Divino?
       O Cristo pareceu meditar alguns momentos e explanou:
       — Num vale de longínquo país, alguns judeus cegos de nascença habituaram-se à treva e à miséria em que viviam, e muitos anos permaneciam na furna em que jaziam mergulhados, quando iluminado irmão de raça por lá passou e falou-lhes da profunda beleza do Monte Sião, em Jerusalém, onde o povo escolhido adora o Supremo Pai. 
       Ao lhe ouvirem a narrativa, todos os cegos experimentaram grande comoção e lastimaram a impossibilidade em que se mantinham.
       O vidente amigo, porém, esclareceu-lhes que a situação não era irremediável. 
Se tivessem coragem de aplicar a si mesmos determinadas disciplinas, com abstinência de variados prazeres de natureza inferior a que se haviam acostumado nas trevas, poderiam recobrar o contacto com a luz, avançando na direção da cidade santa.
       A maioria dos ouvintes recebeu as sugestões com manifesta ironia, assegurando que os progenitores e outros antepassados haviam sido igualmente cegos e que se lhes afigurava impossível a reabilitação dos órgãos visuais.
       Um deles, porém, moço corajoso e sereno, acreditou no método aconselhado e aplicou-o.
       Entregou-se primeiramente às disciplinas apontadas e, depois de quatro anos de meditações, trabalho intenso e observação pessoal da Lei, com jejuns e preces, obteve a visão.
       Quase enlouqueceu de alegria.
       Em êxtase, contou aos companheiros a sublimidade da experiência, comentando a largueza do céu e a beleza das árvores próximas; 
contudo, ninguém acreditou nele.
       Não obstante ser tomado por demente, o rapaz não desanimou.
       Agora, enxergava o caminho e conseguiria avançar.
       Ausentou-se do vale fundo, mas, sem qualquer noção de rumo, vagueou dias e noites, em estado aflitivo. 
       Atacado por lobos e víboras em grande número, usava a maior cautela, reconhecendo a própria inexperiência, até que, certa manhã, abeirando-se de um esconderijo cavado na rocha, para colher mel silvestre, foi aprisionado por um ladrão que lhe exigiu a bolsa;
       Entretanto, como não possuísse dinheiro, deixou-se escravizar pelo malfeitor que durante cinco anos sucessivos o reteve em trabalho incessante. 
O servo, porém, agiu com tamanha bondade, multiplicando os exemplos de abnegação, que o espírito do perseguidor se modificou, fazendo-se mais brando e reformando-se para o bem, restituindo-lhe a liberdade.
       Emancipado de novo, o crente fiel recomeçou a jornada, porque a ânsia de alcançar o templo divino povoava-lhe a mente.
       
       Pôs-se a caminho, distribuindo fraternidade e alegria com todos os viajores que lhe cruzassem a estrada, mas, atingindo um vilarejo onde a autoridade era exercida com demasiado rigor, foi encarcerado como sendo um criminoso desconhecido; no entanto, sabendo que seria
traído pelas próprias forças insuficientes, caso buscasse reagir, deixou-se trancafiar até que o problema fosse resolvido, o que reclamou longo tempo. 
       Nunca, entretanto, se revelou inativo no exercício do bem. Na própria cadeia que lhe feria a inocência, encontrou vastíssimas oportunidades para demonstrar boa-vontade, amor e tolerância, sensibilizando as autoridades, que o libertaram enfim.
       O ideal de atingir o santuário sublime absorvia-lhe o pensamento e prosseguiu na marcha;
       todavia, somente depois de vinte anos de lutas e provas, das quais sempre saía vitorioso, é que conseguiu chegar ao Monte Sião para adorar o Supremo Senhor.
       O Mestre interrompeu-se, vagueou o olhar pela sala silenciosa e rematou:
       — Assim é a caminhada do homem para o Reino Celestial.
       Antes de tudo, é preciso reconhecer a sua condição de cego e aplicar a si mesmo os remédios indicados nos mandamentos divinos.    
       Alcançado o conhecimento, apesar da zombaria de quantos o rodeiam em posição de ignorância, é compelido a marchar por si mesmo, e sozinho quase sempre, do escuro vale terrestre para o monte da claridade divina, aproveitando todas as oportunidades de servir, indistintamente, ainda mesmo aos próprios inimigos e perseguidores.
       Quando o seguidor do bem compreende o dever de mobilizar todos os recursos da jornada, em silêncio, sem perda de tempo com reclamações e censuras, que somente denunciam inferioridade, então estará em condições de alcançar o Reino, dentro do menor prazo, porque viverá plasmando as próprias asas para o vôo divino, usando para isso a disciplina de si mesmo e o trabalho incessante pela paz e alegria de todos.



do livro - Jesus no Lar
Francisco Cândido Xavier
Pelo Espírito Neio Lúcio

sábado, 6 de maio de 2017

109) Estranha Moral


CAPÍTULO XXIII - Estranha Moral


       1. Como nas suas pegadas caminhasse grande massa de povo, Jesus, voltando-se, disse-lhes: 
       - Se alguém vem a mim e não odeia a seu pai e a sua mãe, a sua mulher e aseus filhos, a seus irmãos e irmãs, mesmo a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. 
       -E quem quer que não carregue a sua cruz e me siga, não pode ser meu discípulo. 
       - Assim, aquele dentre vós que não renunciar a tudo o que tem não pode ser meu discípulo. (S. LUCAS, cap. XIV, vv. 25 a 27 e 33.)

       2. Aquele que ama a seu pai ou a sua mãe, mais do que a mim, de mim não é digno; aquele que ama a seu filho ou a sua filha, mais do que a mim, de mim não é digno. (S. MATEUS, cap. X, v. 37.)

       3. Certas palavras, aliás muito raras, atribuídas ao Cristo, fazem tão singular contraste com o seu modo habitual de falar que, instintivamente, se lhes repele o sentido literal, sem que a sublimidade da sua doutrina sofra qual quer dano. 
       Escritas depois de sua morte, pois que nenhum dos Evangelhos foi redigido enquanto ele vivia, lícito é acreditar-se que, em casos como este, o fundo do seu pensamento não foi bem expresso, ou, o que não é menos provável, o sentido primitivo, passando de uma língua para outra, há de ter experimentado alguma alteração. 

     Basta que um erro se haja cometido uma vez, para que os opiadores o tenham repetido, como se dá freqüentemente com relação aos fatos históricos.
       O termo odiar, nesta frase de S. Lucas: Se alguém vem a mim e não odeia a seu pai e a sua mãe, está compreendido nessa hipótese. 
       A ninguém acudirá atribuí-la a Jesus. Será então supérfluo discuti-la e, ainda menos, tentar justificá-la. Importaria, primeiro, saber se ele a pronunciou e, em caso afirmativo, se, na língua em que se exprimia, a palavra em questão tinha o mesmo valor que na nossa. 

       Nesta passagem de S. João: 
       "Aquele que odeia sua vida, neste mundo, a conserva para a vida eterna", é indubitável que ela não exprime a idéia que lhe atribuímos.
       A língua hebraica não era rica e continha muitas palavras com várias significações.
       Tal, por exemplo, a que no Gênese, designa as fases da criação:      
       servia, simultaneamente, para exprimir um período qualquer de tempo e a revolução diurna. 

       Daí, mais tarde, a sua tradução pelo termo dia e a crença de que o mundo foi obra de seis vezes vinte e quatro horas. 
       Tal, também, a palavra com que se designava um camelo e um cabo, uma vez que os cabos eram feitos de pêlos de camelo. 

       Daí o haverem-na traduzido pelo termo camelo, na alegoria do
buraco de uma agulha. (Ver capítulo XVI, nº 2.) (1)
__________
       (1) Non odit, em latim: Kaï ou miseï em grego, não quer dizer odiar, porém, amar menos. 
       O que o verbo grego miseïn exprime, ainda melhor o expressa o verbo hebreu, de que Jesus se há de ter servido. 
       Esse verbo não significa apenas odiar, mas, também amar menos, não amar igualmente, tanto quanto a um outro. 

       No dialeto siríaco, do qual, dizem, Jesus usava com mais freqüência, ainda melhor acentuada é essa significação. Nesse sentido é que o Gênese (capítulo XXIX, vv. 30 e 31) diz: “E Jacob amou também mais a Raquel do que a Lia, e Jeová, vendo que Lia era odiada...” 

       É evidente que o verdadeiro sentido aqui é: menos amada. 
       Assim se deve traduzir. 
       Em muitas outras passagens hebraicas e, sobretudo, siríacas, o mesmo verbo é empregado no sentido de não amar tanto quanto a outro, de sorte que fora contra-senso traduzi-lo por odiar, que tem
outra acepção bem determinada. 
       O texto de S. Mateus, aliás, afasta toda a dificuldade. - ( Nota do Sr.
Pezzani.)

O Evangelho Segundo O Espiritismo- CAPÍTULO XXIII - ESTRANHA MORAL - Allan Kardec

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