quinta-feira, 6 de julho de 2017

terça-feira, 16 de maio de 2017

110) A Jornada Redentora (excelente)




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A jornada redentora

       Aberta a doce conversação da noite, em torno da Boa Nova, a esposa de Zebedeu perguntou, reverente, dirigindo-se a Jesus:
       — Senhor, como se verificará nossa jornada para o Reino Divino?
       O Cristo pareceu meditar alguns momentos e explanou:
       — Num vale de longínquo país, alguns judeus cegos de nascença habituaram-se à treva e à miséria em que viviam, e muitos anos permaneciam na furna em que jaziam mergulhados, quando iluminado irmão de raça por lá passou e falou-lhes da profunda beleza do Monte Sião, em Jerusalém, onde o povo escolhido adora o Supremo Pai. 
       Ao lhe ouvirem a narrativa, todos os cegos experimentaram grande comoção e lastimaram a impossibilidade em que se mantinham.
       O vidente amigo, porém, esclareceu-lhes que a situação não era irremediável. 
Se tivessem coragem de aplicar a si mesmos determinadas disciplinas, com abstinência de variados prazeres de natureza inferior a que se haviam acostumado nas trevas, poderiam recobrar o contacto com a luz, avançando na direção da cidade santa.
       A maioria dos ouvintes recebeu as sugestões com manifesta ironia, assegurando que os progenitores e outros antepassados haviam sido igualmente cegos e que se lhes afigurava impossível a reabilitação dos órgãos visuais.
       Um deles, porém, moço corajoso e sereno, acreditou no método aconselhado e aplicou-o.
       Entregou-se primeiramente às disciplinas apontadas e, depois de quatro anos de meditações, trabalho intenso e observação pessoal da Lei, com jejuns e preces, obteve a visão.
       Quase enlouqueceu de alegria.
       Em êxtase, contou aos companheiros a sublimidade da experiência, comentando a largueza do céu e a beleza das árvores próximas; 
contudo, ninguém acreditou nele.
       Não obstante ser tomado por demente, o rapaz não desanimou.
       Agora, enxergava o caminho e conseguiria avançar.
       Ausentou-se do vale fundo, mas, sem qualquer noção de rumo, vagueou dias e noites, em estado aflitivo. 
       Atacado por lobos e víboras em grande número, usava a maior cautela, reconhecendo a própria inexperiência, até que, certa manhã, abeirando-se de um esconderijo cavado na rocha, para colher mel silvestre, foi aprisionado por um ladrão que lhe exigiu a bolsa;
       Entretanto, como não possuísse dinheiro, deixou-se escravizar pelo malfeitor que durante cinco anos sucessivos o reteve em trabalho incessante. 
O servo, porém, agiu com tamanha bondade, multiplicando os exemplos de abnegação, que o espírito do perseguidor se modificou, fazendo-se mais brando e reformando-se para o bem, restituindo-lhe a liberdade.
       Emancipado de novo, o crente fiel recomeçou a jornada, porque a ânsia de alcançar o templo divino povoava-lhe a mente.
       
       Pôs-se a caminho, distribuindo fraternidade e alegria com todos os viajores que lhe cruzassem a estrada, mas, atingindo um vilarejo onde a autoridade era exercida com demasiado rigor, foi encarcerado como sendo um criminoso desconhecido; no entanto, sabendo que seria
traído pelas próprias forças insuficientes, caso buscasse reagir, deixou-se trancafiar até que o problema fosse resolvido, o que reclamou longo tempo. 
       Nunca, entretanto, se revelou inativo no exercício do bem. Na própria cadeia que lhe feria a inocência, encontrou vastíssimas oportunidades para demonstrar boa-vontade, amor e tolerância, sensibilizando as autoridades, que o libertaram enfim.
       O ideal de atingir o santuário sublime absorvia-lhe o pensamento e prosseguiu na marcha;
       todavia, somente depois de vinte anos de lutas e provas, das quais sempre saía vitorioso, é que conseguiu chegar ao Monte Sião para adorar o Supremo Senhor.
       O Mestre interrompeu-se, vagueou o olhar pela sala silenciosa e rematou:
       — Assim é a caminhada do homem para o Reino Celestial.
       Antes de tudo, é preciso reconhecer a sua condição de cego e aplicar a si mesmo os remédios indicados nos mandamentos divinos.    
       Alcançado o conhecimento, apesar da zombaria de quantos o rodeiam em posição de ignorância, é compelido a marchar por si mesmo, e sozinho quase sempre, do escuro vale terrestre para o monte da claridade divina, aproveitando todas as oportunidades de servir, indistintamente, ainda mesmo aos próprios inimigos e perseguidores.
       Quando o seguidor do bem compreende o dever de mobilizar todos os recursos da jornada, em silêncio, sem perda de tempo com reclamações e censuras, que somente denunciam inferioridade, então estará em condições de alcançar o Reino, dentro do menor prazo, porque viverá plasmando as próprias asas para o vôo divino, usando para isso a disciplina de si mesmo e o trabalho incessante pela paz e alegria de todos.



do livro - Jesus no Lar
Francisco Cândido Xavier
Pelo Espírito Neio Lúcio

sábado, 6 de maio de 2017

109) Estranha Moral


CAPÍTULO XXIII - Estranha Moral


       1. Como nas suas pegadas caminhasse grande massa de povo, Jesus, voltando-se, disse-lhes: 
       - Se alguém vem a mim e não odeia a seu pai e a sua mãe, a sua mulher e aseus filhos, a seus irmãos e irmãs, mesmo a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. 
       -E quem quer que não carregue a sua cruz e me siga, não pode ser meu discípulo. 
       - Assim, aquele dentre vós que não renunciar a tudo o que tem não pode ser meu discípulo. (S. LUCAS, cap. XIV, vv. 25 a 27 e 33.)

       2. Aquele que ama a seu pai ou a sua mãe, mais do que a mim, de mim não é digno; aquele que ama a seu filho ou a sua filha, mais do que a mim, de mim não é digno. (S. MATEUS, cap. X, v. 37.)

       3. Certas palavras, aliás muito raras, atribuídas ao Cristo, fazem tão singular contraste com o seu modo habitual de falar que, instintivamente, se lhes repele o sentido literal, sem que a sublimidade da sua doutrina sofra qual quer dano. 
       Escritas depois de sua morte, pois que nenhum dos Evangelhos foi redigido enquanto ele vivia, lícito é acreditar-se que, em casos como este, o fundo do seu pensamento não foi bem expresso, ou, o que não é menos provável, o sentido primitivo, passando de uma língua para outra, há de ter experimentado alguma alteração. 

     Basta que um erro se haja cometido uma vez, para que os opiadores o tenham repetido, como se dá freqüentemente com relação aos fatos históricos.
       O termo odiar, nesta frase de S. Lucas: Se alguém vem a mim e não odeia a seu pai e a sua mãe, está compreendido nessa hipótese. 
       A ninguém acudirá atribuí-la a Jesus. Será então supérfluo discuti-la e, ainda menos, tentar justificá-la. Importaria, primeiro, saber se ele a pronunciou e, em caso afirmativo, se, na língua em que se exprimia, a palavra em questão tinha o mesmo valor que na nossa. 

       Nesta passagem de S. João: 
       "Aquele que odeia sua vida, neste mundo, a conserva para a vida eterna", é indubitável que ela não exprime a idéia que lhe atribuímos.
       A língua hebraica não era rica e continha muitas palavras com várias significações.
       Tal, por exemplo, a que no Gênese, designa as fases da criação:      
       servia, simultaneamente, para exprimir um período qualquer de tempo e a revolução diurna. 

       Daí, mais tarde, a sua tradução pelo termo dia e a crença de que o mundo foi obra de seis vezes vinte e quatro horas. 
       Tal, também, a palavra com que se designava um camelo e um cabo, uma vez que os cabos eram feitos de pêlos de camelo. 

       Daí o haverem-na traduzido pelo termo camelo, na alegoria do
buraco de uma agulha. (Ver capítulo XVI, nº 2.) (1)
__________
       (1) Non odit, em latim: Kaï ou miseï em grego, não quer dizer odiar, porém, amar menos. 
       O que o verbo grego miseïn exprime, ainda melhor o expressa o verbo hebreu, de que Jesus se há de ter servido. 
       Esse verbo não significa apenas odiar, mas, também amar menos, não amar igualmente, tanto quanto a um outro. 

       No dialeto siríaco, do qual, dizem, Jesus usava com mais freqüência, ainda melhor acentuada é essa significação. Nesse sentido é que o Gênese (capítulo XXIX, vv. 30 e 31) diz: “E Jacob amou também mais a Raquel do que a Lia, e Jeová, vendo que Lia era odiada...” 

       É evidente que o verdadeiro sentido aqui é: menos amada. 
       Assim se deve traduzir. 
       Em muitas outras passagens hebraicas e, sobretudo, siríacas, o mesmo verbo é empregado no sentido de não amar tanto quanto a outro, de sorte que fora contra-senso traduzi-lo por odiar, que tem
outra acepção bem determinada. 
       O texto de S. Mateus, aliás, afasta toda a dificuldade. - ( Nota do Sr.
Pezzani.)

O Evangelho Segundo O Espiritismo- CAPÍTULO XXIII - ESTRANHA MORAL - Allan Kardec

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